Viscossuplementação
Uma aplicação ou várias? Entenda os diferentes protocolos de ácido hialurônico no joelho
Aplicação única ou múltiplas? Entenda por que o número de aplicações, sozinho, não define o melhor tratamento com ácido hialurônico no joelho e o que deve ser comparado.
15 de outubro de 2026

Quem recebe indicação de viscosuplementação para osteoartrite do joelho costuma chegar rapidamente a uma dúvida: vou precisar fazer uma aplicação ou várias?
A pergunta é importante porque hoje existem formulações de ácido hialurônico desenvolvidas para aplicação única e outras utilizadas em protocolos de múltiplas aplicações, geralmente distribuídas ao longo de algumas semanas.
Mas o número de aplicações, sozinho, não determina se um tratamento é melhor, mais potente ou mais eficaz. Na verdade, antes de contar quantas vezes o procedimento será realizado, é preciso entender qual ácido hialurônico está sendo utilizado, quanto será administrado e qual evidência existe para aquela formulação e para aquele protocolo.
Uma aplicação ou várias: por que existem protocolos diferentes?
Durante muitos anos, a viscosuplementação foi associada principalmente a protocolos de três a cinco aplicações. Posteriormente, surgiram formulações desenvolvidas para administração em uma única aplicação. Hoje, as duas estratégias coexistem na prática clínica e na literatura científica.
Isso acontece porque nem todo ácido hialurônico é igual.
Como explicamos anteriormente neste blog, existem diferenças entre as formulações em características como:
- concentração;
- peso molecular;
- volume administrado;
- viscosidade;
- estrutura molecular;
- dose total de ácido hialurônico;
- protocolo de administração.
Por isso, dizer apenas que um tratamento utiliza uma aplicação e outro utiliza três não é suficiente para compará-los.
Número de seringas não é sinônimo de dose.
Uma formulação pode ter sido desenvolvida para entregar determinada dose em uma única administração e outra pode utilizar um protocolo no qual o tratamento é distribuído em diferentes aplicações. São estratégias diferentes de viscosuplementação.
Uma aplicação é melhor do que três?
Não necessariamente e o contrário também não é verdadeiro.
Esse é provavelmente um dos pontos mais importantes para o paciente compreender.
A literatura científica que compara diferentes regimes de viscosuplementação não estabelece uma regra simples segundo a qual “menos aplicações é melhor” ou “mais aplicações é melhor”. Uma revisão sistemática publicada em 2019 (McElheny et al., 2019) analisou estudos comparando diferentes regimes de ácido hialurônico para osteoartrite do joelho. Entre os estudos que compararam diretamente formulações de aplicação única e múltiplas aplicações, não foi encontrada uma diferença consistente nos resultados relatados pelos pacientes. Os autores também observaram que ainda existem relativamente poucos estudos comparativos diretos entre os diferentes regimes.
Já uma meta-análise dedicada especificamente às formulações de aplicação única (Vincent, 2019), reunindo mais de 4 mil pacientes, encontrou redução de dor com monoinjeção e concluiu que seus resultados eram semelhantes aos observados historicamente com regimes de múltiplas aplicações, reconhecendo as limitações metodológicas dessa comparação.
Ou seja: a ciência não permite escolher um protocolo simplesmente contando aplicações.
Então o que deveria ser comparado?
Imagine dois tratamentos descritos apenas desta maneira:
- Tratamento A: uma aplicação.
- Tratamento B: três aplicações.
Ainda sabemos muito pouco sobre eles. Para uma comparação adequada, seria necessário conhecer pelo menos a formulação utilizada, a concentração de ácido hialurônico, o volume administrado em cada procedimento, a dose total entregue ao final do protocolo, suas propriedades físico-químicas e a evidência clínica disponível.
Essa distinção é particularmente importante porque os estudos sobre viscosuplementação envolvem produtos diferentes.
Portanto, não se deve automaticamente transferir o resultado encontrado com uma determinada formulação para qualquer outro ácido hialurônico apenas porque ambos são administrados em uma ou em várias aplicações. A evidência precisa acompanhar a formulação estudada.
E o volume? 2 mL, 3 mL, 4,8 mL ou 6 mL fazem diferença?
Essa é outra pergunta interessante, principalmente quando falamos de uma articulação grande como o joelho.
Existem produtos com volumes diferentes, assim como existem diferentes concentrações e doses totais. Mas aqui também é importante evitar uma simplificação. Maior volume não significa automaticamente maior eficácia, assim como um volume menor não significa necessariamente que exista produto insuficiente dentro da articulação. Volume deve ser interpretado juntamente com concentração, quantidade total de ácido hialurônico, características da formulação e protocolo para o qual aquele produto foi desenvolvido.
Por exemplo, uma seringa com maior volume e menor concentração pode entregar uma dose total menor do que uma seringa com menor volume e maior concentração. Por isso, olhar apenas os mililitros novamente conta apenas parte da história.
No caso do Biolevox™ HA ONE, por exemplo, a formulação apresenta 4,8 mL e foi desenvolvida para administração intra-articular, incluindo grandes articulações, tais como joelho, quadril e ombro. Sua documentação descreve hialuronato de sódio de alto peso molecular, produzido por biofermentação e de origem não animal (Biolevox™ HA ONE – material técnico e documentação brasileira).
Portanto, quando o assunto é tamanho da articulação, volume é uma variável relevante da formulação, mas não deve ser analisado isoladamente nem utilizado para concluir que determinado volume é necessariamente superior a outro.
Para o paciente, existe também uma questão de conveniência
Aqui aparece uma diferença bastante concreta entre os protocolos.
Um tratamento realizado em uma única aplicação e um tratamento realizado em três aplicações podem representar experiências diferentes para o paciente, mesmo quando ambos sejam clinicamente apropriados.
Um protocolo de múltiplas aplicações pode exigir retornos programados ao consultório ou serviço de saúde para completar o tratamento.
Uma estratégia de aplicação única concentra a administração em um único procedimento.
Por isso, dependendo do produto, do paciente e da indicação, aspectos como disponibilidade, deslocamento, rotina profissional, necessidade de retornos e preferência do próprio paciente também podem fazer parte da decisão compartilhada.
Uma revisão sistemática que comparou regimes de viscosuplementação (McElheny et al., 2019) apontou justamente a possibilidade de menor inconveniência para o paciente com formulações de aplicação única, embora não tenha encontrado superioridade clínica consistente de um regime sobre o outro nos estudos comparativos disponíveis.
Conveniência, entretanto, não deve ser confundida com eficácia. Um protocolo pode ser mais conveniente para determinado paciente sem ser, por isso, universalmente melhor.
E existe uma segunda jornada: a do sistema de saúde
Cada aplicação intra-articular é também um evento assistencial.
Dependendo de como o tratamento é realizado, pode envolver utilização de consultório ou estrutura hospitalar, equipe, materiais, procedimento, eventual orientação por imagem e retorno do paciente. Por isso, quando diferentes estratégias são clinicamente adequadas, o número de intervenções também pode fazer parte da análise.
Mas, novamente, existe um cuidado importante: menos aplicações não significam automaticamente menor custo total. Assim como uma seringa mais barata não significa necessariamente um tratamento mais econômico.
Para compreender o impacto de determinada estratégia, seria necessário considerar o protocolo completo, os recursos utilizados para realizá-lo, eventual necessidade de repetição do tratamento e, principalmente, os resultados clínicos alcançados.
É uma mudança aparentemente pequena na pergunta: em vez de perguntar apenas “quanto custa essa seringa?”, passa-se a perguntar:
“O que é necessário para completar esse tratamento e qual resultado ele entrega?”
Um exemplo de formulação desenvolvida para aplicação única
O Biolevox™ HA ONE é uma formulação de aplicação única que contém 120 mg de hialuronato de sódio em 4,8 mL, correspondendo a 25 mg/mL (2,5%). Seu material técnico informa peso molecular de 3.200 kDa e viscosidade de 650 Pa·s (Biolevox™ HA ONE – material técnico e documentação brasileira).
Esses números descrevem o produto. Mas existe outra pergunta igualmente importante: essa formulação foi estudada clinicamente dessa maneira?
No caso do Biolevox™ HA ONE, sim.
Um estudo publicado em 2025 (Biolevox™ HA ONE clinical study, Multidisciplinary Pain Journal, 2025) avaliou 148 pacientes com osteoartrite do joelho tratados com uma única aplicação intra-articular de 4,8 mL contendo 120 mg de ácido hialurônico. Cento e quarenta pacientes completaram o acompanhamento de um ano. As avaliações realizadas aos 3, 6 e 12 meses mostraram melhora estatisticamente significativa de dor e função física em comparação com os valores iniciais. O estudo foi aberto, multicêntrico, não comparativo e realizado em condições de prática clínica real. O estudo demonstra evidência clínica específica para aquela formulação utilizada em aplicação única e acompanhada durante 12 meses. Ele não demonstra que toda aplicação única terá o mesmo resultado. Da mesma maneira, estudos de produtos administrados em três ou cinco aplicações precisam ser interpretados de acordo com a formulação e o protocolo efetivamente estudados.
Uma aplicação pode durar 12 meses? E três também?
Essa pergunta precisa ser respondida com cuidado.
O número de aplicações não determina sozinho a duração do benefício clínico. Existem formulações e protocolos diferentes, e a duração observada precisa ser demonstrada nos estudos de cada produto.
Também é importante diferenciar duas coisas: tempo de permanência física do ácido hialurônico na articulação e duração do benefício clínico observado no paciente não são necessariamente a mesma coisa.
No estudo citado anteriormente com Biolevox™ HA ONE (Multidisciplinary Pain Journal, 2025), os pacientes foram acompanhados durante 12 meses e os resultados clínicos permaneceram significativamente melhores que os valores iniciais nesse período.
Da mesma forma, protocolos de múltiplas aplicações podem apresentar benefício clínico prolongado quando isso é sustentado pela evidência da respectiva formulação.
Por isso, a pergunta correta não é simplesmente:
“Quantas aplicações são necessárias para durar mais?”
Mas:
“Qual é a evidência de duração do benefício para o produto e protocolo que estão sendo propostos?”
Precisa repetir a viscosuplementação todos os anos?
Também não existe uma resposta universal.
Na prática clínica, podem existir novos ciclos de viscosuplementação quando há indicação médica e retorno dos sintomas. Fontes médicas voltadas aos pacientes frequentemente descrevem possibilidade de repetição de protocolos em determinados intervalos, mas a decisão depende da resposta individual, da formulação utilizada, da evolução da osteoartrite e da avaliação médica.
Isso significa que protocolo de múltiplas aplicações e repetição futura de um tratamento são conceitos diferentes.
Três aplicações realizadas como parte de um mesmo protocolo não são a mesma coisa que repetir um novo ciclo meses depois. Essa diferença é importante para que o paciente compreenda exatamente o tratamento que está recebendo.
Então, o que o paciente deveria perguntar antes da infiltração?
Mais importante do que chegar ao consultório procurando uma aplicação ou múltiplas é compreender por que determinada estratégia está sendo indicada para aquele caso.
Algumas perguntas podem tornar essa conversa muito mais clara:
- Qual ácido hialurônico será utilizado?
- Qual é sua concentração?
- Qual será a dose total administrada durante todo o protocolo?
- Qual é o volume de cada aplicação?
- O tratamento prevê uma aplicação ou múltiplas aplicações?
- Por que esse protocolo foi escolhido para o meu caso?
- Qual evidência clínica existe para essa formulação e para esse protocolo?
- Por quanto tempo o benefício foi acompanhado nos estudos?
São perguntas simples, mas capazes de transformar a participação do paciente na decisão.
No final, não é uma disputa entre “uma” e “várias”
A viscosuplementação evoluiu e hoje existem diferentes estratégias disponíveis.
Há formulações desenvolvidas para aplicação única e formulações desenvolvidas para protocolos fracionados. Ambas podem ter espaço no tratamento da osteoartrite quando corretamente indicadas. Por isso, reduzir a discussão a “uma aplicação é melhor” ou “três aplicações são melhores” provavelmente significa fazer a pergunta errada.
O mais importante é compreender qual produto está sendo utilizado, qual dose está sendo entregue, qual protocolo foi estudado, qual evidência sustenta aquela estratégia e por que ela faz sentido para aquele paciente.
E existe ainda uma dimensão que não deve ser ignorada: a jornada necessária para alcançar o resultado.
Para alguns pacientes, realizar todo o protocolo em uma única intervenção pode representar uma conveniência importante. Para outros, um protocolo fracionado pode ser a estratégia escolhida pelo médico.
O objetivo não deveria ser simplesmente realizar mais ou menos aplicações. Deveria ser escolher a formulação adequada, no protocolo adequado, para o paciente adequado, buscando o melhor resultado clínico com uma jornada de cuidado coerente.
Referências
- McElheny K, Toresdahl B, Ling D, Mages K, Asif I. Comparative Effectiveness of Alternative Dosing Regimens of Hyaluronic Acid Injections for Knee Osteoarthritis: A Systematic Review. Sports Health. 2019;11(5):461-466. DOI
- Vincent P. Intra-Articular Hyaluronic Acid in the Symptomatic Treatment of Knee Osteoarthritis: A Meta-Analysis of Single-Injection Products. Current Therapeutic Research. 2019;90:39-51. DOI
- Torres Morera LM, Neira Reina F, Ortega JL, Lozano Sánchez JJ, Calderón E. Eficacia de la inyección intrarticular única de ácido hialurónico con una alta concentración para la osteoartritis de rodilla. 12 meses de seguimiento. Multidisciplinary Pain Journal. 2025;5(1):2-10. DOI
- Biolevox™ HA ONE – material técnico e documentação brasileira. 120 mg/4,8 mL; peso molecular 3.200 kDa; viscosidade 650 Pa·s; hialuronato de sódio de alto peso molecular produzido por biofermentação, de origem não animal. Registro ANVISA 82416090004. ANVISA
Sobre o autor
Rooter Medical
Distribuidora brasileira de implantes cirúrgicos, biomateriais, OPME e medicina regenerativa. Tecnologia de alto nível e suporte técnico para cirurgiões, hospitais e operadoras.

